Mais do que um evento que discute as principais questões relacionadas aos afro-brasileiros, a Palmares Itinerante gera resultados práticos por onde passa, como ações para combater o racismo e o preconceito. A segunda parte do encontro, que desta vez teve como sede a cidade do Rio de Janeiro, foi realizada nesta quarta-feira (19), no Museu do Amanhã.

Palmares ItineranteNa abertura do segundo dia de atividades (confira neste link o resumo do primeiro dia), o babalorixá Pedro Gaeta fez um balanço das principais conquistas que Mato Grosso do Sul alcançou pouco mais de um mês após a realização da Palmares Itinerante em Campo Grande, nos dias 14 e 15 de março.

Nesse curto espaço de tempo, o estado ganhou uma delegacia especializada em casos de intolerância religiosa e combate à violência contra a população negra. Segundo Gaeta, também avançaram as discussões para se implementar nas escolas o ensino da história e cultura negras, junto com a criação de uma feira de mulheres quilombolas e ciganas, agendada para 27 de maio, de um projeto de contos itinerante, da reativação do Conselho da Igualdade Racial e do surgimento de um grupo jurídico para dar auxílio gratuito a afro-brasileiros.

“A Fundação Palmares realiza este evento em parceria com a sociedade e convidamos os poderes estaduais e municipais para participar. Porém, as ações não acabam no encontro e é necessário empenho para colocarmos em prática o que se discute aqui. Não adianta organizar tudo isso e não buscar resultados”, defendeu Gaeta.

Recursos 

A mesa de debates contou com a presença do presidente da Fundação Cultural Palmares, Erivaldo Oliveira, da secretária municipal de Cultura do Rio de Janeiro, Nilcemar Nogueira, do diretor da revista Raça, o cartunista Maurício Pestana, da educadora Vanda Ferreira, militante do Movimento Negro, e do fotógrafo e ativista Januário Garcia.

Erivaldo Oliveira falou sobre o tema captação de recursos, que pode ser útil para colocar em prática projetos culturais da população negra. “Não basta aprovar políticas públicas. É necessário pensar na origem dos recursos”, comentou o presidente da Palmares. Na visão dele, há necessidade de se capacitar os afro-brasileiros que atuam na produção cultural em questões como elaboração de projetos e prestação de contas, considerados calcanhares de Aquiles que levam à não aprovação das iniciativas ou à inadimplência.

Nilcemar Nogueira também tratou da questão de recursos para projetos culturais, enfatizando a importância de um planejamento adequado. No entanto, defendeu certa flexibilização em alguns procedimentos que tratam da mesma forma grandes empresas, que dispõem de enorme estrutura, e produtores e artistas independentes que não conseguem lidar com a burocracia.

Em sua fala, Maurício Pestana criticou a pouca presença de material sobre igualdade racial nas escolas brasileiras. O diretor da Raça vai participar do projeto-piloto capitaneado pela Fundação Palmares para capacitar professores que irão trabalhar com os kits educativos O que você sabe sobre a África, que serão distribuídos inicialmente em escolas de 17 municípios das cinco regiões.

Indígenas e negros

Vanda Ferreira lembrou do Dia do Índio, comemorado nesta quarta, 19 de abril, e ressaltou que as populações afro, trazidas à força para o Brasil, sempre tiveram profundo respeito pelos povos indígenas, nas palavras dela, “os donos da terra”. Vanda criticou a falta de capacidade do sistema educacional brasileiro em lidar com a diversidade, rejeitando as trajetórias dos negros e indígenas. “Precisamos ser modernos sem abandonar nossas origens, encarando a violência do colonialismo e nos reconstruindo a partir dos destroços”, falou.

Januário Garcia destacou que os negros ajudaram a construir o Brasil sem ganhar nada por isso. “Temos de pensar a questão da nossa luta. Fizemos a riqueza do ouro, do açúcar e do café e herdamos a miséria. Hoje estamos fazendo a riqueza das drogas e herdando a miséria. Nossos jovens estão sendo dizimados. O que queremos deste país? O que esperamos do amanhã? A Fundação Palmares está aqui para discutir e pensar conosco sobre o futuro”, afirmou.

Após as falas dos membros da mesa, mais uma vez o evento foi aberto para colocações e perguntas do público sobre os mais diversos assuntos referentes à vida dos afro-brasileiros.

 

Marcelo Araújo
Assessoria de Comunicação
Ministério da Cultura

 

Você precisa se cadastrar para participar